Entrevista: Editora Pipoca e os livros infantis para iPad no Brasil

Posted on Sep 3, 2014 in Bastidores do iPad, Para ler | 2 Comments
Entrevista: Editora Pipoca e os livros infantis para iPad no Brasil

Hoje a gente publica uma entrevista bem bacana que fizemos com o pessoal da Editora Pipoca. Eles encararam o desafio de publicar livros infantis interativos aqui no Brasil e contam pra gente como tem sido a experiência. Confira e aproveite para conhecer os títulos que já foram lançados.  Dica: o blog da editora é incrível e trata de temas importantes para quem curte literatura infantil, digital para crianças e pensamentos sobre a infância. Boa leitura 😉

 

ipadfamilia: Por que criar uma editora que faz exclusivamente livros infantis para tablet?

Ed Pipoca: Crianças gostam de histórias e gostam de tecnologia. Os tablets estão aí, sendo usados por crianças no mundo todo. Mas, no Brasil, elas basicamente só têm a opção dos Apps, que são muito legais, mas nem sempre o que a criança quer é jogar e é interessante e importante que ela tenha outra opção de uso para esse equipamento. A experiência de um jogo é muito diferente da experiência de leitura, as crianças sabem disso e sabem o que querem quando procuram um jogo ou um livro. O que a gente pensa é que, mesmo que existam os Apps que contam histórias, quando se adquire um App, se espera que ele tenha um monte de recursos legais e divertidos, mas, se ele realmente tiver, isso vai atrapalhar a leitura da história, o foco vai se perder, a criança dará mais atenção aos recursos tecnológicos que à história em si. Então, se é possível fazer um livro que realmente seja livro digital, por que não fazer? Se as crianças gostam de tecnologia e já usam tablets, por que não dar a elas a opção de leitura? Aí, quando passou a ser possível fazer livros legais e bonitos, resolvemos abrir a editora!

No Meu Guarda- Roupa

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ipadfamilia: Como vocês selecionam o que produzir para o catálogo?

Ed Pipoca: Quando a gente estava criando a editora, pensamos em indicações dos livros baseadas nas idades das crianças e em como usar os recursos pra eles não atrapalharem o acompanhamento da história. Então definimos que teríamos sete faixas indicativas e fomos estudando sobre essa questão toda do uso dos recursos, de como usá-los de forma a enriquecer a experiência sem atrapalhá-la. O que vimos é que as crianças mais novas são as mais prejudicadas com o mal uso dos recursos, é preciso ser muito criterioso. Com isso a gente criou uma base bem fundamentada pra poder pensar em qual recurso usar pra cada faixa de indicação. Mas não são definições rígidas e pré-estabelecidas, pois cada livro é avaliado em seu próprio contexto da história e das ilustrações. O X da questão é que os recursos têm que vir pra enriquecer o livro. A narração é um dos recursos que, na nossa opinião,enriquece o livro, porque a gravação é feita com contadores de história e eles trabalham as entonações e nuances da voz, então as crianças acompanham da mesma maneira que acompanham quando participam de um evento com contação de história. Com essa escolha, o que a gente percebeu foi que não daria pra ter no texto o destaque da palavra que estava sendo lida, a narração não seria pausada o suficiente. Então a ideia não é que a criança acompanhe a leitura conforme a história é contada, mas que este seja um recurso sonoro que enriqueça o livro. Uma criança que está sendo alfabetizada realmente não vai acompanhar, porque precisa ler bem devagarinho, aí é preciso desativar o som do livro e pronto, ela vai poder ler à vontade! O cuidado que tivemos especialmente para as crianças que estão sendo alfabetizadas foi o uso das letras maiúsculas, que é o primeiro tipo de letra que normalmente se aprende a ler. Fato é que a escolha da letra, o uso dos recursos, isso tudo tem que ser muito bem pensado, produzir para crianças é uma responsabilidade e tanto! Na nossa primeira leva de produção, vamos produzir um livro para cada faixa etária e, depois, vamos fazer oficinas, eventos, enfim, vamos ter contato direto com as crianças pra observar as reações delas com os livros e poder fazer as nossas próprias avaliações.

A Coleção de Maya

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ipadfamilia: Os autores e ilustradores têm facilidade em criar pensando na experiência de uso do tablet? Como é o processo de criação e produção de um livro de vocês?

Ed Pipoca: As histórias não são alteradas por ser um formato digital e as primeiras etapas da produção dos livros são como as produções dos impressos, porque continua sendo um livro. Depois de termos o texto aprovado, começamos a buscar ilustradores e a pensar quais os recursos indicados para aquela faixa etária, quais materiais precisaremos para que eles sejam viáveis (mais etapas de ilustração, sonoplastia, contação de história, etc). O livro é produzido por várias pessoas, sempre tem esse aspecto coletivo, então a parte de definição de ilustração e de escolha de elementos interativos e/ou animados é feita por sugestões de todas as pessoas envolvidas na produção e, aí, avaliamos editorial e pedagogicamente qual é a melhor opção para aquele livro.

ipadfamilia: Por que a versão interativa está só no iOS?

Ed Pipoca: Porque, por enquanto, apenas o iBooks permite esse tipo de interação… Os livros estão disponíveis também no Google Play, mas na versão simplificada por limitações técnicas do próprio Google. Não vemos a hora de conseguir mais canais de vendas e de termos a oportunidade de oferecer a versão completa para android, afinal, nossa ideia é que os livros possam alcançar o maior número possível de leitores, mas isso não está nas nossas mãos…

Um Presente Para Cecilia

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ipadfamilia: Como tem sido o retorno por parte do mercado, dos leitores e educadores?

Ed Pipoca: Ainda temos um catálogo muito pequeno pra poder responder isso. Por mais que estejamos lidando com tecnologia, não deixa de ser uma editora, que depende de catálago pra começar a ver o retorno não só financeiro, mas das pessoas mesmo. Por enquanto estamos focando na produção dos nossos primeiros 9 livros (um para cada faixa etária e dois de receitas culinárias) e temos um retorno legal de quem leu com os filhos ou com alunos. A ideia é publicar estes livros que estão em produção para podermos fazer eventos e oficinas em escolas e outros espaços. Assim que começarmos os eventos nas escolas parceiras, poderemos responder melhor! Agora, sobre o mercado, nós fomos na feira do livro infantil de Bologna e vimos que ainda é um mercado em construção no mundo todo e, por isso, ainda há muitas resistências. O uso do formato dos livros digitais é difuso (há quem faça App-livro, há quem faça livro em e-Pub 3, como nós…) e como o mercado ainda não está formado, muitas editoras não estão querendo apostar no digital, só as maiores. Mas o que já é consenso é que o projeto tem que ser pensado especificamente pro formato digital e que livros e jogos são produtos diferentes que têm que ser mantidos como tal, esses dois pontos podem definir o mercado e indicam que estamos pensando de forma alinhada a ele.

ipadfamilia: Isso dá dinheiro? Vocês têm versões em Inglês dos livros ou é tudo para o Brasil?

Ed Pipoca: Por enquanto, não dá dinheiro, não. Na feira de Bologna foi colocada a questão de que o mercado deve crescer de verdade quando os nativos digitais começarem a ter filhos, pois pra eles vai ser natural procurar conteúdo de qualidade no formato digital. Nós também acreditamos nisso. E, de acordo com as teorias editoriais, pra dar dinheiro, precisamos ter muitos livros no catálogo… mas nós vamos chegar lá! Os livros, por enquanto, existem apenas em português, porque a ideia fundamental é permitir que as crianças brasilieiras encontrem livros em seu idioma, já que em inglês existe uma oferta maior. Mas temos a intenção, sim, de produzir os títulos em inglês.

Mãos na Massa Salgados

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ipadfamilia: O que vocês mais curtem no trabalho com a Pipoca?

Ed Pipoca: Produzir para crianças! A gente curte pensar a produção, pesquisar sons, briefar ilustras, ver o livro pronto no tablet e também ver crianças curtindo os livros. Como falamos ali em cima, nosso contato com as crianças vai aumentar a partir do momento que começarmos os eventos…e estamos doidas pra que isso aconteça logo! É legal ver blogs abrindo espaço pra gente expor nosso trabalho… essas coisas… É muito bom poder fazer o que se acredita, poder trabalhar com gosto, ver que o resultado tá bacana, que as pessoas estão se interessando! É muito legal!

ipadfamilia: O que vocês acham desse papo todo sobre leitura no tablet tomar espaço da leitura de papel? Isso é necessariamente ruim?

Ed Pipoca: O mundo é grande e cabe todo mundo! Se o conteúdo no tablet for bom, feito com critério, com responsabilidade, que mal tem as crianças lerem um livro digital? Uma coisa nao tira o lugar da outra, são opções diferentes, o livro digital não pode ter um projeto gráfico diferente como vários livros impressos lindos têm, por exemplo. Mas os livros impressos não têm a linguagem digital… e o legal é a criança ter contato com os dois formatos, sem excluir nem um, nem outro. A relação não pode ser de competição, mas de complementariedade. As crianças usam tablets, mas o conteúdo a que elas têm acesso e o tempo que utilizam o aparelho é de responsabilidade dos adultos, eles são o filtro. Só que, pra isso, é preciso ter conteúdo de qualidade disponível, é isso que nós estamos buscando fazer. 🙂

ipadfamilia: Quais os planos para o futuro?
Ed Pipoca: Finalizar a produção dos 9 títulos iniciais, dar início aos projetos de oficinas e eventos de leitura nas escolas parceiras e em outros espaços e, talvez, pensar na produção em inglês. Depois, fazer outro ciclo de produção de livros, outras oficinas e eventos com as crianças e continuar produzindo e continuar tendo contato com as crianças e seguir pipocando por aí!

logo_pipoca

 

 

2 Comments

  1. Lionel Freitas
    03/09/2014

    Lindo trabalho. Que bom saber que já tem empresas nacionais se preparando para essa demanda futura. Adoro esse tipo de entrevista.

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    • Maria Claudia
      03/09/2014

      Oi, Lionel,
      Também adoro conhecer os bastidores e entender mais que é essa gente bacana 😉

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